Por Alberto Carlos Almeida
Neste momento em que a Câmara dos Deputados discute a aprovação, ou não, de um "trem da alegria" que efetivaria aproximadamente 300 mil funcionários públicos, a maioria sem concurso, cabe saber que os funcionários públicos participam mais da política do que os autônomos e os empregados com carteira assinada.
Mais do que um terço dos funcionários públicos já participou de greve, ante somente 16% dos empregados com carteira assinada e 14% dos autônomos. A diferença é muito grande, mais do que o dobro.
É bem compreensível que seja assim. Não há demissões no serviço público para os grevistas, ao passo que aqueles que trabalham no setor privado têm sempre sobre a cabeça a espada da possível demissão.
Mais greves?
Greves, muitas vezes, estão associadas a manifestações. Em geral contra o governo. Também nesta modalidade de participação política, os funcionários públicos são os vencedores: 31% já fez isso, o porcentual é de 20% para os empregados com carteira assinada e 17% para os autônomos.
Mais funcionários públicos significa necessariamente mais greves? Obviamente não. O mercado de trabalho brasileiro é muito grande para que seja sentido, em termo de participação política, o impacto da incorporação de 300 mil funcionários públicos.
Sabe-se, porém, ao se considerar as experiências de diversos países europeus, que os governos mais à esquerda tendem a aumentar os gastos com o funcionalismo público em um ritmo maior do que os governos mais à direita. Assim, é de esperar que a máquina estatal brasileira fique mais numerosa, quanto a seus funcionários, depois de um longo e sucessivo período de governos de esquerda.
Como decorrência, teremos, no futuro, uma massa maior de pessoas que poderão ser mobilizadas para greves e manifestações. Estarão lá, disponíveis, prontas para ser mobilizadas pelas elites sindicais.
Outro fato importante decorrente destes dados é que a disputa pela liderança dos "sindicatos de funcionários públicos" é a disputa por greves não punidas, por manifestações em horário de trabalho sem corte de ponto e coisas correlatas.
Poder alterado
Assim, é muito compreensível a disputa entre vários partidos pela liderança sindical; mais do que isso, é compreensível, porque as centrais sindicais no Brasil, com o decorrer dos anos, tiveram seu poder interno alterado em favor das elites advindas da máquina estatal. Foi-se o tempo que o ABC paulista era o grande gerador de líderes sindicais nacionais. Agora, isso depende mais do setor público e, no longo prazo, dos sucessivos "trens da alegria".
*Alberto Carlos Almeida, diretor de Planejamento da Ipsos Public Affairs e autor de "Por Que Lula?" (Record).
Fonte: Valor
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